ABRAÇAR A TERRA TODA

Se eu pudesse abraçar a Terra toda

beijava-a muito, até me cansar

depois transportava-a comigo, ao colo,

junto ao peito, só para a mimar

dizia aos pólos para não serem muito gelados

porque o frio faz-me cócegas na barriga

e depois põe-me a espirrar


De vez em quando brincava com ela

atirava-a ao ar

apanhava-a com firmeza

para a voltar a lançar

e imitar a proeza

rebolávamos pelo espaço sideral

caminhávamos descalços pelo manto celestial

e gritávamos palermices à Lua

porque ela não sabe,

pobrezita...

mas está sempre nua

e ríamos sem parar


Depois, acertava a gravidade

para afinar as rotações

aprumar a translação

e regular as estações


Na primavera,

havia de limpar os oceanos

filtrar as águas

escovar os corais

corrigir as correntes

conversar com as baleias

varrer as praias

limpar os areais…

sacudir os rios

limpar as folhagens

reorientar as cascatas

e ajeitar as margens


No verão,

entretinha-me a brincar com as florestas

penteava as baobás africanas

para estarem sempre sorridentes

e viçosas para os animais


Na Amazónia pintava algumas árvores

com as cores do carnaval

só para ver os índios sorrir

da minha patetice

naquele seu ar angelical

Na floresta boreal

construía bonecos de neve, anafados,

carrancudos,

para divertir as renas do Pai Natal


No Outono,

reorientava o Sol

reciclava a vida

projectava as rajadas e os ventos

desenhava a transição

pintava as árvores com amarelos enegrecidos

vermelhos garridos

e só por brincadeira,

havia de colocar-lhes agasalhos

mantas de retalhos

ou coisa parecida


No inverno,

arrumava os pólos

colava os icebergues bem coladinhos

e empilhava a neve

em montes bem juntinhos

para diversão dos ursos, dos pinguins, das focas

e dos leões-marinhos


Quando já fosse velhinho

sentava-me num banco do jardim espacial

e limitava-me a contemplar a Terra

dizia até amanhã à Lua

essa irmã mais pequenita

até adormecer


Depois da vida, em sonhos

havia de continuar a ver a Terra brilhar

Porque ela ainda por cá há-de ficar

generosa, bela, acolhedora

Mãe protectora!


Muito depois de nós

muito depois!...


Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

Ver vídeoMónica Sousa, Biblioteca de Setúbal

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