A VOZ DO FUTURO

A tormenta ergueu‑se
tal Adamastor antigo,
o que guarda na voz
a recordação do medo
de todos os naufrágios.

Percorreu as aldeias bramindo,
como quem relembra aos homens
que o mundo é feito de forças
que nenhum mapa contém.

Os ventos gritaram bem alto,

os rios desviaram o seu rumo

e alastraram a sua vontade pelos campos.
As valetas saltaram em desespero sobre as estradas,

as janelas voaram pelas planícies,

as casas desgrenhadas pediram por socorro,

os ferros retorcidos lastimaram,

a luz deu lugar à escuridão.

As gentes choram vidas;
nada conseguiu conter a fúria dos céus.

Quando o gigante se dissipou,
como neblina cansada,
ficou no ar um silêncio fértil,
uma promessa sem palavras,
como se o futuro, tímido,
ensaiasse o gesto de voltar.

Entre destroços e sal,
os povos descobriram que a esperança
não nasce do que resta,
mas do que a memória se recusa a perder.

Porque há sempre um futuro que insiste
em erguer‑se das ondas.

Fernando Alagoa © 2026 | Todos os direitos reservados


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