FILHO

(poema de 02-09-2017)

Não senti o êxtase de te carregar no ventre,
Porque sou homem.
Mas não te amo menos por isso.
Porque um pai transporta o filho na alma.

Andei contigo ao colo vezes sem conta,
Até adormeceres nos meus olhos.
Abracei-te junto ao peito
Para sentir a tua pele
E inebriar-me com o teu perfume de anjo.

Quando ainda não sabias falar,
Conversávamos com o coração
E com o sorriso do olhar.
Entendíamo-nos por gestos
E com os sons do pensamento.

Ajudei-te a dar os primeiros passos
E ensinei-te a andar de bicicleta.
Às vezes, em movimentos pouco ajuizados,
Rebolávamo-nos pelo chão
Em brincadeiras patetas,
E ríamo-nos sem parar.

Dei-te a ouvir a minha música,
A ler os meus livros
E a ver os meus filmes.
Alimentei os teus sonhos com os meus sonhos
E fiz-te navegar pelas minhas convicções.
Mas sempre soube que não eras meu,
Apesar dessas doces ilusões.

Foste um projecto divino,
Um teste de Deus
À minha capacidade de amar,
À minha capacidade de abnegação,
Ao meu egoísmo.

Já não sou um pai-herói,
E um dia serei apenas uma memória numa moldura.
Sonhas o mundo pelas tuas ideias
E caminhas com os teus próprios passos.

Talvez nunca te deixe uma grande fortuna,
Mas acredito que a forma como conduzo a minha vida
Tenha impacto na tua.
E que a herança que te deixo
Esteja inscrita no tempo que passámos juntos:
Nas minhas derrotas,
Nos meus sucessos
Na integridade das minhas acções,
Na forma como tratei aqueles com quem me cruzei,
Nas causas que defendi
E na educação que te dei.

Sei que nunca foste meu
E que pensas pela tua cabeça.
Navegas agora sozinho,
Mas alimento a esperança
De te ter mostrado o caminho.

Ouvir: https://www.youtube.com/watch?v=4fALYQVrRWE 

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

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