ABRIL DE 1974

Depois da escuridão, veio a madrugada,
uma madrugada cheia de luz,
de cores intensas, de verdade.
No coração, um desígnio;
na boca, a sede promulgada
de uma liberdade
lenta, malograda,
que ardia
em tardes de desespero
e profunda melancolia.

Abril desceu à rua
saltitando, audaz:
calças largas, camisa solta, cabelo ao vento.
Em motim,
lá foi — vivaz,
ansioso pelo festim
desenhado pelas mãos aflitas do amanhecer:
um rascunho do futuro
e da felicidade
que tardava, superando mágoas
no horizonte da ansiedade.

Desceu pelas calçadas,
pelas praças,
pelas fontes.
Lançou-se pelas vielas,
pelas ribeiras,
pelas pontes.
Colou-se às portas,
às janelas,
aos postigos.
Matou abraços,
espalhou sorrisos.

Mas Abril… oh, meu Deus…
Abril não passava de uma criança sorridente,
filha de uma manhã inconsequente,
vibrante, entusiasmada,
que se enamorou por uma flor
nascida no cano de uma espingarda.

Esse Abril, inocente,
aurora do esplendor,
morreu nesse mesmo dia,
incapaz de condenar a tirania.
Foi brando com o opressor,
entendeu-lhe a mão, abriu-lhe o peito.
Abril era amor.
Morreu ali mesmo,
num acto de paixão,
entre o êxtase e a traição.

A esperança, o sonho febril,
derramou-se pelo chão;
perdeu-se em lágrimas,
em pedaços mil.

Pobre Abril…

Do Abril da revolução,
intensas,
só as memórias de Caxias,
as agruras do Tarrafal.
De resto,
pouco mais que utopias.

Oh, meu amor…
meu querido Portugal.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

Celebrando Abril | Arrojo, Desalento e Esperança | Poema 2/3

(poema de 25 de Abril de 2023, revisitado)

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