JUVENTUDE

Quando era jovem, a pele tinha um brilho que me iluminava por dentro,

como se cada poro guardasse um pequeno sol.

O cabelo, inquieto, disputava com a luz —

e eu acreditava, secretamente, que o próprio dia nascia ali.


Caminhava com a leveza de quem ainda não conhece o peso do mundo,

e cada gesto era um voo breve,

um rouxinol escondido no peito a bater asas sem pedir licença.


A visão alcançava longe,

o horizonte, os sonhos.

E a voz… a voz tinha a ousadia de um leão jovem,

certa de que o futuro lhe pertencia.


Os anos passaram,

não com violência, mas com aquela firmeza terna

que só o tempo sabe usar.

Levaram brilho, levaram ímpeto, levaram pressa.

Mas deixaram-me algo mais profundo:

uma doçura que não conhecia,

uma sabedoria que não pedi,

uma serenidade que me veste melhor do que qualquer juventude.


A verdade é que a juventude nunca partiu.

Mudou de lugar.

Já não vive na pele, vive no pensamento.

Já não dança nas pernas, dança nas ideias.

Já não arde no rosto, arde no coração.


Só o corpo denuncia as estações.

A alma, essa, continua a florir,

mais sábia, mais inteira,

embora a velha ilusão ainda tente, às vezes,

cobrir-me os olhos com o véu do que já fui.


Mas eu sei:

a juventude que ficou é mais verdadeira

do que a que passou.


© Fernando Alagoa


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