PoET, O NOVO MUNDO
Há dias, vi uma reportagem sobre o Telescópio Solar PoET, instalado no Observatório do Paranal, no Chile, e a importância da participação portuguesa neste projecto. As descobertas que daí advêm são de uma beleza rara. Seja em que área for, é impossível não nos maravilharmos com a criatividade do ser humano. Quando nos unimos, somos verdadeiramente capazes de alcançar o extraordinário.
Questiono-me amiúde — pelo menos há uns 50 anos — se ainda em vida, na minha vida, na nossa vida, ou na vida dos nossos filhos e netos, a raça humana será capaz de se libertar do logro, da hipocrisia, da exploração e do crime. Mas, em especial, pergunto-me se seremos capazes de acabar com a guerra, com a miséria e com a fome. De alcançar, como tão bem escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen, aquela “madrugada limpa”, dias inteiros e limpos.
Imagine-se, como John Lennon, um mundo sem países, sem motivos para matar ou morrer, onde todos vivam em paz. Imaginá-lo é fácil. E talvez concretizá-lo não seja assim tão difícil; falta-nos apenas a vontade.
Repare-se que PoET, o acrónimo inglês para Paranal Solar ESPRESSO Telescope, evoca a palavra "poeta". Creio que foi essa feliz coincidência que desassossegou as mentes dos cientistas portugueses: a poesia, o sonho, o Espaço e as estrelas inspiram-nos, despertando o que de melhor há em nós.
Imagine-se, pois, um outro "poeta" a erguer-se entre as grandes potências. Um mundo onde o dinheiro hoje canalizado para a destruição fosse colocado ao serviço daquilo que nos deveria caracterizar, mas que ainda estamos longe de alcançar: a humanidade.
Imagine-se acordar sob o efeito dessa madrugada limpa, sem motivos para subjugar ou explorar. Imagine-se que os porta-aviões, os caças, os drones e as bombas eram substituídos por estradas, pontes, escolas, hospitais e teatros... tudo ao serviço da vida. Imagine-se que a única “guerra” admissível era aquela que travasse o fim da fome, da miséria, da doença e da poluição.
Que o PoET, do cume do seu deserto, continue a limpar o ruído das estrelas para encontrar novos mundos no firmamento. E que nós, aqui em baixo, saibamos limpar o ruído do egoísmo para reconstruir o nosso. Afinal, se a ciência nos permite tocar no infinito através do olhar de um poeta de metal e vidro, não haverá força mais lírica, nem revolução mais romântica, do que ousarmos fazer da Terra o mais bonito dos poemas. Que o amanhã nos traga, finalmente, esse espelho do céu: um mundo livre, inteiro e limpo.
© Fernando Alagoa