SILÊNCIO ABISSAL
O silêncio não é o vazio; é o momento em que o mundo fecha os olhos, prende a respiração e escuta o horizonte. Longe de uma simples ausência de ruído, ele é a matéria invisível que sustenta todas as palavras, o pano de fundo onde a existência se desenha.
Na filosofia, o silêncio surge como o verdadeiro berço do pensamento. É na calada da terra que a mente se despede das futilidades do mundo e se volta para dentro, iniciando o único diálogo que realmente importa: aquele que o ser trava consigo mesmo. O silêncio não anula as perguntas; pelo contrário, ele é o único espaço vasto o suficiente para que as respostas mais profundas possam ecoar sem serem sufocadas pelo eco do quotidiano. É uma forma de respeito perante o mistério, o limite onde a razão se curva e a contemplação começa.
Poeticamente, o silêncio é a linguagem que os olhos usam quando o coração está cheio demais para caber em palavras. Há silêncios que pesam na distância de uma despedida, e outros que flutuam como plumas no repouso de dois olhares que se entendem sem pressa. O silêncio é a pausa na música que dá sentido à nota seguinte. É a folha em branco que torna o poema possível, o sussurro do tempo, a melodia discreta das coisas que apenas existem, sem a necessidade urgente de se justificarem.
Num mundo que grita sem cessar, escolher o silêncio é um acto de rebeldia poética, de eficácia prática e de lucidez filosófica. É a arte de esvaziar o copo para que ele se possa, finalmente, encher de novo.
Deixo-vos com o silêncio.
© Fernando Alagoa
