Postagens

JUVENTUDE

Imagem
Quando era jovem, a pele tinha um brilho que me iluminava por dentro, como se cada poro guardasse um pequeno sol. O cabelo, inquieto, disputava com a luz — e eu acreditava, secretamente, que o próprio dia nascia ali. Caminhava com a leveza de quem ainda não conhece o peso do mundo, e cada gesto era um voo breve, um rouxinol escondido no peito a bater asas sem pedir licença. A visão alcançava longe, o horizonte, os sonhos. E a voz… a voz tinha a ousadia de um leão jovem, certa de que o futuro lhe pertencia. Os anos passaram, não com violência, mas com aquela firmeza terna que só o tempo sabe usar. Levaram brilho, levaram ímpeto, levaram pressa. Mas deixaram-me algo mais profundo: uma doçura que não conhecia, uma sabedoria que não pedi, uma serenidade que me veste melhor do que qualquer juventude. A verdade é que a juventude nunca partiu. Mudou de lugar. Já não vive na pele, vive no pensamento. Já não dança nas pe...

DIA INTERNACIONAL DA FAMÍLIA | 15 MAIO 2026

Imagem
No Dia Internacional da Família celebramos o lugar onde a vida começa a ganhar forma, onde aprendemos o ritmo dos dias e o sentido das coisas que não cabem em palavras. A família, seja grande ou pequena, próxima ou espalhada pelo mapa, é o primeiro poema que habitamos. É ali que descobrimos o verso do cuidado, a rima do perdão e a melodia que nos sustém quando o mundo desafina. Não é perfeita, nunca foi, mas é feita de gestos que iluminam: um olhar que acolhe, uma mão que segura, um silêncio que compreende. Neste Dia Internacional da Família honramos esse espaço onde crescemos e recomeçamos, onde aprendemos a amar e a ser amados, onde cada dia é um capítulo novo e cada gesto de ternura um verso que permanece. Porque a família, com todas as suas cores, as suas histórias e as suas imperfeições, é, no fundo, a poesia que nos escreve. © Fernando Alagoa

DIA DA MÃE

Imagem
Para as mães que fazem da vida um lugar mais leve, que cuidam, inspiram, protegem e ensinam. Para as mães que seguram o mundo com gestos pequenos e fazem do cuidado uma forma de esperança. Para as mães que conhecem o silêncio dos nossos medos e a alegria escondida nos nossos sorrisos. Para as mães que caminham ao nosso lado, mesmo quando seguimos longe, que são porto seguro, casa, raiz. © Fernando Alagoa

ABRIL, FRAGMENTOS DE UTOPIA

Imagem
Abril por cumprir, aquele que inunda os corações, ancestral, persiste, à solta, na garganta dos poetas, na exultação das palavras, na exigência das promessas. Com elas, a esperança de que se cumpra o país universal. Fernando Alagoa © todos os direitos reservados Celebrando Abril | Arrojo, Desalento e Esperança | Poema 3 /3

ABRIL DE 1974

Imagem
Depois da escuridão, veio a madrugada, uma madrugada cheia de luz, de cores intensas, de verdade. No coração, um desígnio; na boca, a sede promulgada de uma liberdade lenta, malograda, que ardia em tardes de desespero e profunda melancolia. Abril desceu à rua saltitando, audaz: calças largas, camisa solta, cabelo ao vento. Em motim, lá foi — vivaz, ansioso pelo festim desenhado pelas mãos aflitas do amanhecer: um rascunho do futuro e da felicidade que tardava, superando mágoas no horizonte da ansiedade. Desceu pelas calçadas, pelas praças, pelas fontes. Lançou-se pelas vielas, pelas ribeiras, pelas pontes. Colou-se às portas, às janelas, aos postigos. Matou abraços, espalhou sorrisos. Mas Abril… oh, meu Deus… Abril não passava de uma criança sorridente, filha de uma manhã inconsequente, vibrante, entusiasmada, que se enamorou por uma flor nascida no cano de uma espingarda. Esse Abril, inocente, aurora do esplendor, morreu nesse mesmo dia, in...

ABRIL

Imagem
Os homens saíram à rua. Na alma carregavam a fome, no peito a necessidade de a saciar. Abril nasceu dessa vontade. Numa mão trazia a esperança, na outra a liberdade. Alastrou-se pelas ruas, pelas vielas, pelas praças, resoluto, abrindo caminhos, conquistando espaços. A revolução fez-se, não com armas, mas com cravos e abraços. Fernando Alagoa © todos os direitos reservados Celebrando Abril | Arrojo, Desalento e Esperança | Poema 1/3 (poema de 25 de Abril de 2020, revisitado)

LIVROS DE ESPERANÇA

Imagem
Pus a esperança nos livros, nunca me aquietei. Era preciso decifrar as palavras, rodopiá-las, sonhá-las outra vez, libertá-las, construir ilusões, deixá-las voar, sulcar os ventos, redesenhá-las, transformá-las em vulcões. Fernando Alagoa © todos os direitos reservados (poema de 23-04-2025)

VIAJANTES CELESTES

Imagem
Sete viajantes celestes atravessam Áries como quem atravessa um portal esquecido. Não caminham: flutuam sobre fogos antigos, despertando memórias que o mundo já não sabia guardar. O Sol veste-se de ouro líquido e abre o caminho, um farol que rasga o véu entre o que fomos e o que ousamos ser. A Lua segue-o, translúcida, carregando nas mãos o eco das emoções que ainda não nasceram. Mercúrio sussurra encantamentos rápidos, palavras que brilham como lâminas húmidas. Marte, guardião do fogo primordial, ergue o seu estandarte de cinzas vivas. Saturno, o velho alquimista, recolhe o tempo nas mãos e molda-o em silêncio. Neptuno dissolve fronteiras, transformando o ar em neblina sagrada. E Quíron, o curandeiro ferido, caminha por último, para abrir o coração do mistério. Quando sete planetas atravessam Áries, o cosmos entoa um cântico que só a alma reconhece. As sombras tornam-se tochas. Os medos tornam-se portais. O destino torna-se chama. É o instante em que o universo recorda o primeiro sopr...

SEDE

Imagem
Os meus lábios enamoraram-se pelos teus, em chamas, suplicam pelos beijos que havemos de trocar. Se o fogo me dominar, deixa-me arder, levar-te-ei comigo até a sede se perder. Fernando Alagoa © todos os direitos reservados (poema de 11-09-2019)

LUZ INTEIRA E ESPERANÇOSA

Imagem
Há momentos em que o choro nos consome, a alma recolhe-se como um pássaro cansado que procura um ramo seguro onde pousar. O mundo continua a girar lá fora, mas dentro de nós o tempo abranda, e cada pensamento ecoa como passos num corredor despido e silencioso. Ainda assim, mesmo nesse intervalo entre o que dói e o que se espera, há uma claridade que nos habita — discreta, mas verdadeira — como uma chama que não se deixa apagar pelo vento. Às vezes, a vida parece um céu encoberto. Mas por detrás das nuvens cinzentas a luz continua inteira, à nossa espera. E tu és feito(a) dessa mesma luz: não da que ofusca, mas da que aquece; não da que grita, mas da que permanece. Há uma força em ti que não precisa de ser vista para existir — basta senti-la, como quem sente o mar mesmo sem o ver. Quando o cansaço te tocar, deixa que a esperança se sente ao teu lado. Ela não exige nada, não te apressa, não te cobra. Apenas te acompanha, como um fio de música distante que te lembra que ainda há beleza ...

DENTRO DAS MANHÃS

Imagem
A madrugada, o café, a cascata em chamas sobre as chávenas, o aroma delicioso O sabor do pão, o cheiro inefável A casa, a nossa casa A vida, o sonho derramado na concretização A aragem matinal dissipando a neblina Os raios de sol espreguiçando-se As velas desfilando a perspectiva O rádio sobre o horizonte, a música embalando o momento E depois, existes tu e eu dentro das manhã (poema de 02-07-2019) Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

DIA MUNDIAL DA ÁRVORE

Imagem
As árvores são mais do que paisagem — são presença. Erguem-se com a serenidade de quem conhece o pulsar da Terra e guardam, nos seus corpos, capítulos inteiros da nossa história. Cada raiz que se estende é um gesto de amabilidade, cada folha que nasce um acto poético, cada fruto uma celebração discreta da vida. No silêncio das florestas, as árvores ensinam-nos a crescer, a resistir às tempestades e a procurar o caminho da luz. São abrigo, alimento, sombra casa comum. Futuro. Fernando Alagoa © 2026 | Todos os direitos reservados

DIA MUNDIAL DA FELICIDADE | 20 de MARÇO

Imagem
A felicidade não é um destino, nem um raio de sol eterno. É sopro breve, um brilho que se acende no meio do caminho. Vive escondida nos detalhes: no riso que nasce sem aviso, no silêncio que abraça, no instante em que o mundo inteiro cabe dentro de um olhar. Talvez seja essa a magia: saber acolher os pequenos milagres do quotidiano, deixar-se tocar pela surpresa da luz que irradia. Fernando Alagoa © 2026 | Todos os direitos reservados

FILHO

Imagem
(poema de 02-09-2017) Não senti o êxtase de te carregar no ventre, Porque sou homem. Mas não te amo menos por isso. Porque um pai transporta o filho na alma. Andei contigo ao colo vezes sem conta, Até adormeceres nos meus olhos. Abracei-te junto ao peito Para sentir a tua pele E inebriar-me com o teu perfume de anjo. Quando ainda não sabias falar, Conversávamos com o coração E com o sorriso do olhar. Entendíamo-nos por gestos E com os sons do pensamento. Ajudei-te a dar os primeiros passos E ensinei-te a andar de bicicleta. Às vezes, em movimentos pouco ajuizados, Rebolávamo-nos pelo chão Em brincadeiras patetas, E ríamo-nos sem parar. Dei-te a ouvir a minha música, A ler os meus livros E a ver os meus filmes. Alimentei os teus sonhos com os meus sonhos E fiz-te navegar pelas minhas convicções. Mas sempre soube que não eras meu, Apesar dessas doces ilusões. Foste um projecto divino, Um teste de Deus À minha capacidade de amar, À minha capacidade de abnegação, Ao meu egoísmo. Já não sou...

SE O MUNDO OUSASSE

Imagem
E se, em vez de guerras, construíssemos navios que fossem jardins sobre o mar? Porta‑aviões que não transportam medo, mas sementes por germinar. Que atravessam o oceano como quem leva um abraço a quem tem frio. Navios onde o ar cheira a pão acabado de cozer, onde as paredes guardam risos, onde cada corredor é um caminho de regresso à dignidade. E se os drones que cruzam o céu fossem apenas pequenos guardiões, a deslizar sobre campos de flores, a seguir o brilho dos rios, a ouvir o coração profundo dos mares? Máquinas que não procuram alvos — procuram vida. Que não vigiam fronteiras — vigiam fragilidades. Talvez seja isto que nos falta: virar o mundo com a delicadeza de quem vira uma pétala caída, e descobrir que, do outro lado, ainda há luz. Usar a mesma inteligência que hoje ergue muros para construir abrigos. A mesma tecnologia que hoje vigia destruição para vigiar renascimentos. Imagina um “porta‑esperança”: um navio onde a n...